Sexta-feira, 16 de Setembro de 2005

Da imperfeição em ti.

Às vezes apetecia-me berrar a toda a gente que eu e tu éramos namorados. Odiava que o escondesses dos teus múltiplos pretendentes no activo e, pior, das tuas amigas mais próximas. Sério. Quando estávamos bem - e como fazíamos disso um momento tão raro - sorrias com o ar mais ingénuo do mundo a ver se me esquecia de te fazer perguntas. Ou de te suplicar que me aceitasses assim: como mais do que teu amante nas horas vagas.
Dás-me a volta, reconheço.
Curioso, como me levaste a acreditar que o amor será sempre, para mim, uma farsa com tons de teatro vicentino - como o disse uma vez, num desabafo salpicado de vinho verde branco, daquele que me deixava com uma azia do tamanho deste mundo. Dramático e complexo. Mas, caramba, eu não fui sempre assim. E até me acredito que tu também não - apesar de pareceres sempre mais díficil que a fisica quântica.
No entanto, desististe de "nós" como quem desiste de ir a pé à padaria num dia de chuva. Com medo de te constipares.
Rídiculo.
És tão forte quanto intensa era a nossa paixão. E, apesar de abusares do diminutivo de fraca, nunca tive receio de te magoar. Eras comodista e emocionalmente egoísta demais para ao afastares-te de mim ficares perturbada. Despreocupada, até.
Nada para ti, é certo. Nunca nada era certo. Precisavas de mais tempo, mais vontade, maior preparação. Todos os dias mais uma maldita coisa. Uma nova desculpa evasiva. Excepto as tuas inúmeras condições - ah!, essas eram mais que certas. E necessárias para que nós pudéssemos ser, alguma vez, um casal completo e bonito.
Soa-te a uma lista de queixumes, imagino?
Pois bem, apesar de tudo isto, eu estive sempre disposto a aguentar. Amo-te. E isso basta - julgava eu. Pelos vistos, não. Querias sempre, sempre mais de mim. Levar-me ao limite, certamente. E eu deixei. Até que quiseste tu ir embora. Levar contigo essa imperfeição que faz de ti humana. Levar contigo o calor com que te deitaste na minha cama e da qual sempre saltaste como se eu não passasse de um homem banal. Desististe, como já referi.

«Como queiras, então.»


escrito pelo Homem Fantasma às 01:51
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Cláudio Alves

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