Quinta-feira, 5 de Maio de 2005

Enquanto houver estrada para andar a carroça dos poetas vai continuar.

carrocadospoetas.JPG


- Sabes como nos defino?
- Como?
- «um início promissor e um fim triste!»
- Olha que merda... É isso mesmo que achas?
- Sim... claro que é.
- Eu diria que isso diz-se de qualquer caso amoroso falhado... não sei... talvez de...
- Nós não nos amamos... Olha para mim... achas que «existem várias formas de gostar... ou será tudo a mesma»?
- Que pergunta é essa? Isso soa-me a ratoeira. A perspectiva bíblica fala em 3 diferentes formas de amar, eu falo numa só. Vais chamar-me de redutor, bem sei.
- Falei em gostar... não em amar. Cismas em confundir tudo... pára de manipular o diálogo.
- Eu?! Será que não fui claro: já te disse que não percebo nem quero sujar a mente ao tentar perceber as complexidades do amor. Atenção para onde arrastas a conversa.
- Tenho pensado nisto várias vezes: será justo que sejas emocionalmente inútil?
- «À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica» dá-me vontade de sujar as mãos... Cansa-me menos do que qualquer vez em que me sujes a mente, inspirando e tornando-me em apetites que não sei definir.
- Porque estás a falar nesse modo... poético? Estás a declamar poesia?
- Eu não sei gostar de poesia. Gosto, apenas, de alguns poetas. Sim, sempre gostei muito de Campos...
- Sabes?, «não te quero perder... não aceitas quando te digo, mas é verdade... por isso tenho medo... tenho medo das tuas mudanças repentinas, reacções e conflitos interiores que outras amigas te possam causar. Não me censures por ter medo... e ciúmes».
- Sabes?, eu ia convosco... ao mesmo tempo. Arranco a pele de tanto pensar nisto. Nem te sei apontar nem clarificar. Aliás, se o fizesse nunca seria com total certeza. É melhor não ter certezas - recordo agora que Campos escrevia que «em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas»!
- De que estás a falar?!... Ouviste o que disse?
- Falo-te de... sei lá!
- Tens a certeza?
- Como ter a certeza se ainda agora te disse que para preservar a minha sanidade devo fugir das certezas?!
- Já começa a ficar tarde... Amanhã acordo cedo. Levas-me a casa?
- Sim, já vamos. Deixa-me só fumar um cigarro...
- Mas, outro?
- Sim... pois!... Está bem. Vamos lá... A ver se o carro pega. (...) Põe o cinto... ah, e tranca a tua porta.


CVA, «Caderno de Apontamentos» 2005


escrito pelo Homem Fantasma às 05:27
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6 comentários:
De Anónimo a 6 de Maio de 2005 às 00:27
Maravilha cláudio, até arrepia. Os meus parabéns.
P.s. Nem pareces da Feup, de certeza que não foste parar à faculdade errada.astropastor
(http://http.//perolas.blogs.sapo.pt)
(mailto:cabomartim@sapo.pt)


De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 22:38
"Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há
doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?" Álvaro de Campos - A Tabacaria
Ursa Menor
(http://decandeiasasavessas.blogs.sapo.pt)
(mailto:ursa.menor@sapo.pt)


De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 20:37
Hum...É sempre um problema o "trancar as portas".Trancamos por medo, arrepiamos a nossa segurança...e depois, é a merda que se vê:tanta "porta" que mantemos a todo o custo, fechada!Nia
(http://nia7.blogs.sapo.pt)
(mailto:natefe@sapo.pt)


De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 17:08
(...) Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,/Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, (...)

Ao Volante - Álvaro de Camposmarta
</a>
(mailto:marta.pinheiro@fe.up.pt)


De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 15:24
... :)...
</a>
(mailto:dfger@ee.csjk)


De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 13:17
Parabéns! Este este texto está realmente bom. Além do conteúdo, está bem escrito e apesar de longo é dinâmico e por isso não se torna "chato". :)Ana
</a>
(mailto:ana_pereira@hotmail.com)


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